domingo, 22 de maio de 2011

O ladrão, minha filha e eu

Um telefonema à cobrar. Eu ainda estava na minha cama, nesta manhã fria em Brasília.
Sabia que era minha filha, pois tinha dormido na casa de uma amiga. Sua voz estava embargada e eu pressenti que havia algo errado.
Abri o portão e ela deu-me a notícia chorosa: - mãe um cara me falou, entrega sua bolsa e ela acertadamente, como sempre foi instruída,
nem olhou na cara do sujeito. Entregou a bolsa. Passiva, estática, sem conseguir absorver os sentimentos que aflorariam. A vontade de chegar em casa,
a insegurança, o medo, o pavor de que ele a seguisse.
Havia coisas de valor em sua bolsa. Presentes do pai, dinheiro, seus documentos, mas o principal foi junto. A sua integridade e a confiança de poder ir e vir com liberdade.
Minha primeira reação foi ajoelhar-me diante dela e orar.
Agradecer a Deus por tê-la preservado de qualquer outro mal, que acontece todos os dias, em todos os momentos. Chorei com ela. Mas não foi um choro de tristeza. Não da minha parte. Foi de alegria. Minha filha está em casa segura comigo.
Depois de um tempo, um tempo em silêncio enquanto ela comia alguma coisa, eu só consegui dizer: - não quero mais viver aqui. Quero ir embora deste lugar. Quero viver com um mínimo de segurança e tranquilidade. Quero não ter que ter cerca elétrica na minha casa, portões altos, um medo desmedido de que as vítimas tão comuns, estampadas nos jornais aqui, sejam um dos meus filhos.

Orei novamente em meu quarto e Deus me falou por sua palavra. "Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam. Se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela."


Meu coração já andava trancado para o lugar onde moro. Hoje, terceiro pior trânsito do Brasil, tendo apenas 50 anos. Brasília, a capital me deixou mal!

Entendo que por onde eu for e os meus, Deus ordenará anjos em nosso favor. Sei que Ele tem o controle de absolutamente tudo, mas penso que se temos a possibilidade, ínfima que seja, de ter uma vida mais tranquila, em um lugar onde se possa andar com segurança, devemos fazê-lo. Por nossos filhos, por nós mesmos.

Hoje há um misto de tristeza e decepção no meu coração, com o sentimento de alívio. Minha filha agora dorme, depois de chorar. Depois de chegar em casa cabisbaixa, vitimizada da falta de valores, do desprezo ao ser humano, impotência, especialmente da sua completa exposição, sem qualquer chance de perguntar: porque?


Eles simplesmente chegam, em plena luz do dia e te fazem refém. Tiram o que é seu. Violam sua liberdade.

Cansei! Da cidade grande, da loucura, da falta de consideração, respeito, amor! Cansei!
Lembro-me da minha cunhada, morando ainda em São Paulo, com um revólver na cabeça para entregar o carro que ela dirigia no trânsito louco. Era o terceiro roubo do seu carro em menos de 2 meses.  Minha sobrinha tinha apenas 2 aninhos e estava no banco de trás. Somente o milagre de Deus, fez com que, antes que os bandidos levassem a criança, ela conseguisse pegá-la por um espaço onde não passaria um gato! Sequer uma criança robusca, linda, cheia de vida.
Na mesma semana, ela anunciou a venda de sua casa e hoje vive em paz numa pequena cidade do interior.

É ser irracional querer ter um portão baixinho?  é ser tão absurdamente inflexível ao ponto de querer viver em paz?  Eu devo me sentir culpada por querer ir embora de um lugar, onde não consigo dormir enquanto meus dois filhos não estão dentro da minha casa?


Podem me chamar de exagerada, louca, talvez radical demais. Mas em um segundo, eu posso perder o que tenho de mais valor.

Prefiro não correr este risco, sabendo que todo o esforço que eu fizer para viver em um local tranquilo, por meus filhos, Deus estará conosco.

Não duvidem se nesta semana, eu colocar um placa imensa de VENDE-SE na minha casa.


Gláucia Carvalho

22.05.2011

3 comentários:

Anônimo disse...

Oi Gláucia aqui é o David Sicon, quero fazer contato com você; o meu email é davidsicon@hotmail.com e também estou no orkut como David Sicon. É só entrar lá no meu perfil que tem o meu telefone. Um grande abraço, saudades. Beijão.

J.F.AGUIAR disse...

Gláucia minha irmã e amiga, também
passei por esta situação aqui no
Rio de janeiro, vivemos presos
em nossas casas, há muitos malfeitores; o respeito, o amor
não faz sentido para muitos...
não adiante um policial em cada rua
sabemos disso, nada muda se nada muda: Se o homem não se libertar de
seus pecados, e não aceitar a Jesus
como Senhor e Salvador nada irá mudar...Vamos orar pelos nossos filhos, vamos orar por nossa sociedade. Se o homem mudar a coisas mudam. Que o senhor esteja
confortando o seu coração e que sua
filha nunca mais passe por esta triste situação. Sossegue em
Cristo no silêncio de sua Paz.
Minha irmã, Deus é contigo!
Um fraterno abraço
deste seu amigo e irmão em Cristo
Vou orar por vocês.

David Sérgio Brito disse...

Não colocaria a placa para não expor os moradores. Coloque na mão de um corretor, se for o caso. Lamentando o ocorrido, tenha certeza de uma coisa: onde quer que você esteja, se não estiver Deus guardando, em vão serão as medidas de segurança adotadas, inclusive a mudança de cidade. Deus livrou a sua filha de um mal maior. Vão-se os anéis, ficam os dedos. Louvado seja Deus pelo livramento. Abs,