domingo, 14 de fevereiro de 2016

Palavras

Me chamam de poeta, sou nada!
De uma espécie de mensageira, piada!
Uma amiga das palavras, conversa!
Penso até que elas me odeiam,
Porque me perseguem implacáveis,
Deixando-me insone o corpo,
Até escrevê-las fielmente,
Contando meus segredos a um louco.

Nem adianta travar as portas,
Tapar as frestas, fechar vidraça,
Elas entram sei lá por onde,
Importunam-me e só vão para longe
Quando eternizo minha desgraça!

Gláucia Carvalho
08.01.2003

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Vago

Divago.
Vaga.
Vagarosamente.
Em vácuos complexos, sou simples.
Meu vagar é tão vago quanto eu.
Meu divagar foi tão estranho
que doeu!

Gláucia Carvalho
13.01.2016

domingo, 6 de dezembro de 2015

Desentendo

Desentendo!
Na maior parte do tempo sou alienada.
Exato! Não sei de nada!
E do pouco que entendo, não quero saber.
Saber é sofrer!
Cansei daqui.
Sou salomântica inteira.
O que me prende é videira,
De onde vem vinho bom.
Nada mais recebe meu apego.
Tudo que amei nesta terra, me dá medo!
Sou apenas mais uma na multidão.
Clone de outros clones que sofrem da pior solidão.
Ter gente por perto e sentir-se só!
Ah que dó!
Ser quem habita em meu ser.
Me resumo a dores diárias sem fim.
À saudade dos que partiram sem mim,
E me deixaram neste lugar hostil.
Talvez uma praia deserta, talvez uma cachoeira,
Que me lavasse alma inteira,
Derramasse um pouco dos prazeres que o Criador nos deixou.
Meu resumo, ratifico, é solitário.
A um piano e uma voz que se calou.
E me pergunto exaustivamente:
- será que alguém realmente me amou?


Gláucia Carvalho
05.12.2015

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Quimeras

Escrevi um samba uma vez
Ele dizia que sem talvez,
O amanhã chegaria,
Novo dia, calmaria...
As palavras hoje são outras,
Porque são absolutamente todas,
Não poucas, 
As manhãs em que desejo novamente o luar.
Quem sabe uma chuva de gotas serenas,
Que tornem mais amenas,
As dores do meu corpo.
Meu espírito chora quase morto,
Neste ciclo exauridamente repetido.
Quisera eu ter ido.
Quimera, quimeras...
Já foram boas minhas primaveras...

Gláucia Carvalho
09.11.2015

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Pés no chão

Madrugada...
Tenho nada!
Tenho tudo!
Tenho até o absurdo, de achar que tenho...
Li agorinha, os sermões de vida.
Li sobre os valores inversos,
Sobre sábios e néscios,
Sabedoria e loucura,
Percebi quão pura é a fé!
Muito mais que Poder,
É poder ter um pé,
E outro assim, pisados no chão.
Muito mais que qualquer tesouro,
É um puro coração...

Gláucia Carvalho
madrugada de 15.10.2015

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Sonhos de eternidade

Sonhei com azul profundo,
Daqueles de mergulhos onde se toca o chão.
Sonhei também em verde escuro,
Sombra e esperança no coração.

Sonhei descalça e descansada
Até consegui não pensar em nada,
Que não fosse um canto tímido de passarinho.

Sonhei com ventos me contornando,
Fazendo dança no meu cabelo,
Sonhei ter visto um anjo cantando,
Estava a sonhar, ou fui eu mesma vê-lo?

Nessa linha tênue do sono e despertar,
Quando as cores se misturam em amarelo,
Ainda que nossos olhos enxerguem só cinzas,
Há certeza em mim do Eterno!

Daquilo que nenhum olho viu,
Nem ouvido sequer escultou,
O que tem preparado para nós reles mortais,
Iguarias, vida eterna, dom do próprio Autor!

Gláucia Carvalho
2.8.2015

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Tempo

De quantas vidas vou precisar pra saber como se vive?
Às vezes me sinto como uma criança perdida dos pais...
Eu vivi menos, ou vivi mais?
De quantas estrelas eu vou precisar para me localizar neste deserto?
Fui assim tão longe, ou continuo perto?
Quantos milênios teria eu que viver,
Para não saber nada, ou para apenas saber?

Que música teria que ser ouvida, 
Para eu permanecer ou ser minha despedida?
Como me preparar para o desconexo, inverso,
Versos estes que nunca escreverei...
Não! Não! Tempo não terei...
E ainda por olhar desatento,
Que não me vê por dentro,
Há uma lenda que dita,
Que o que mais tenho é tempo!

Gláucia Carvalho
26.06.2015