quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Sem promessas

Neste novo ano eu prometo não prometer.
Não prometo jejum, não prometo comer.
Não prometo cantar, nem tão pouco escrever.
Não prometo sair, se já quero ficar.
Não prometo fugir, nem prometo voltar.

Quero apenas viver dia após dia,
Com mais delicadeza que a idade traz.
Com mais rugas e mais fadiga,
Que dão à minha face um quê de paz.

Só não quebro a promessa primeira,
De ser nas palavras, sempre verdadeira,
E a maior de todas, embora muitas vezes me cause dor,
Minha promessa maior é o amor.

Gláucia Carvalho
27.12.2012

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Cantar é preciso

Eu lamento, mas não lamento mais.
Agora invento.
Agora o vento veio do Espírito Santo.
Cobriu minha nudez,
Calou minha mudez,
É hora de cantar.

Lamento! Cessei de lamentar.
A lamúria é irmã da luxúria
E prima primeira de Narciso.
E meu ser agora grita:
Cantar é preciso!
Navegar é preciso,
Viver eu preciso!

Gláucia Carvalho
16.11.2012

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Mistério

Tem um lado moleque em mim
Que brinca com tudo o que é sério
O outro lado eu ainda não descobri,
Prefiro mantê-lo em mistério...

Gláucia Carvalho
07.10.2012

domingo, 16 de setembro de 2012

Flor delicada

Se ela se enfeitasse toda
Eu ainda não entenderia,
Se ela andasse faceira, felina
Meio mulher, meio menina,
Se seus cabelos untasse todos,
Com a mais fina iguaria,
Eu ainda não entenderia.

Como pode seu homem
Amá-la assim por toda vida,
Ela anda até despercebida,
Do quão linda e doce é.
Mas nasceu pra ser amada,
Até mesmo venerada,
Por onde seu perfume exalar.
Ela nasceu pra ser estudada,
Mimada, minusciada,
Por ela todos perdem a cabeça
E não entedem nada,
Nenhum dicionário explica,
Nenhuma poesia dita
Quem é a  "flor delicada".

*Gláucia significa "flor delicada"


(Em homenagem à Gláucia Bezerra, em estado vegetativo há anos, eternamente amada por seu marido.)


Gláucia Carvalho
16.9.2012

sábado, 15 de setembro de 2012

Água doce

Água doce que te quero tanto,
Água desce para eu te engolir,
Vem matar a sede de leoa em caça
E alagar meu corpo pra que eu volte a rir...

Gláucia Carvalho
15.09.2012

Sabiá sabe lá

A sabiá da vizinha
Canta em todos os tons
Faz uns trinados divinos
Que soam pra mim, como hinos.
A sabiá da vizinha...
Ah se ela fosse minha...

A sabiá da vizinha
Sabe imitar outros passarinhos
Deve curiar outros ninhos
Pra seu repertório inovar
Ah se fosse minha essa sabiá...

A sabiá da vizinha
Sabida, cantante, bonita,
É uma musa do ar,
Eu invejo a vizinha e a sabiá,
Ah se eu pudesse voar...
Ah se eu tivesse uma "sabelá",
Uma sílaba, eu juro, iria cantar!

Gláucia Carvalho
15.09.2012

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Carta

Meu amor, eu queria ser semente da sua flor
queria a distância em uma instância sem valor.
Meu amor queria jamais saber o que você pensa,
pra eu nunca deixar de sonhar, se em todo o momento eu fui tão densa,
tão intensa, tão intensa...
Meu amor, gostaria de guardar a nossa música em um canto do universo
e que todos os meus versos, te dissessem sempre sim.

Meu amor, eu queria poder voltar e consertar o imprevisível, domar o invisível e nunca mais dizer adeus.
Queria que fosse eterno o nosso abraço, que fosse em nó o nosso laço, 

e que meus beijos fossem só seus!

Meu amor, meu desamor, meu afeto, meu desafeto.
Minha dor é um livro aberto...

Gláucia Carvalho
14.09.2012